DIÁRIO DE UMA QUARENTENA
JURANDY VALENÇA
SÃO PAULO,Ca.
︎


5 de abril de 2020
“Tu sabes que um deserto, seja de oiro, seja de amor, é a mesma solidão“.
[Teixeira de Pascoaes]
 
Acho que na terceira semana é pior. A sensação é de atravessar um deserto sozinho, mesmo que acompanhado. É uma overdose de notícias, de [in]certezas. Tenho medo, muito medo. Penso muito nos que moram só, que não tem um marido, uma esposa, amiga ou amigo, ninguém. Ninguém para gritar, ficar mudo, abraçar, rir e chorar. A travessia nesse deserto não tem oásis algum. Não sei quando vai acabar essa travessia. Mas tenho certeza que eu e muit@s que conheço vão [sobre]viver. E nada será o mesmo de antes. Não passo os dias da quarentena procurando porquês e significados. Passo as horas, os dias resignificando tudo.
 
Tem dias que são como montanhas d’água, as órbitas dos olhos quase mar, afundo, flutuo, boio nesse maremoto sólido. Mas sei que há mar.
 
É como uma agnosia, algo como uma cegueira psíquica. Aos muitos percebo que tenho que ficar mais cego porque na real, o mundo todo está aqui dentro.
 
Tento atravessar a pele visível do mundo, das coisas e passar para o lado de dentro. Acessar de novo a caverna de Platão e quiçá tenha iluminações rimbaudianas.
 
Lembro da Clarice em “A Paixão Segundo GH”, que é “como o escuro de dentro me espiasse, ficamos um instante nos espiando sem nos vermos”.
 
O espelho de Narciso quebrou, o lago está turvo. O mundo está quieto no seu Kant.
 
Os breus querendo ser lume.
 
 

 
 



6 de abril de 2020
“O doente é aquele em que o desejo avança”.
Christopher Middleton

Converto trégua em exílio. Não me comove mais as ficções, só as fricções.

Eu estou coberto de gelo, mas isso não quer dizer nada. Estou aos goles, arfando. Tem dias que levanto com as garras desembainhadas. Tenho que lidar todo dia com os méritos e os malogros. O azedume de todo dia, a autobiografia simulada. Não espero milagre algum. Ouvi há pouco que o Mandetta, o Ministro da Saúde vai ser demitido.

Ouço Cocteau Twins agora. Maceió e os anos 80 me atravessam. Quase choro. Resolvi ir no mercadinho chinês e comprar três cervejas. A tarde passa com a sua lindeza, a luz de abril é outra. Por minutos ensaio chorar, chorando dentro. Tem dias que o mar do mundo é seco.

Agora ouvi “I Follows Rivers”, da Lykke Li, e chorei, e ainda estava na segunda cerveja. Mas estou alegre de novo. Sou volúvel.

O silêncio não é branco e nem preto, é off-white. Vários tons de brancos, todos tensos. Da janela escuto o silêncio da rua, da cidade. Somos apenas sonâmbulos em tons pastéis. Os sapatos dos mortos. Um bicho, uma fera qualquer que não se reconhece, exilada nos confins, ermos sinistros, curvatura de víeis, desaprendendo os vivos.

O ar
Deve ser mais denso
Daqui
De onde
Estou.
7 de abril, 19h55
Lembrei dos monges da Ordem da Cartuxa, enclausurados, silenciosos, escrevendo os mais magníficos tratados de tudo, e logo depois os queimarem para que fiquem apenas na memória. O único momento que eles quebram o voto de silêncio é quando vão se recolher e repetem uns para os outros, mementum more. Lembra-te da morte.